Blog

Vinhos fortificados no coquetel: xerez, porto e madeira

Por Douglas Taylor·
Vinhos fortificados no coquetel: xerez, porto e madeira

O vermute teve seu momento de redescoberta nos últimos anos: virou item obrigatório do bar caseiro, ganhou artigo próprio e status de ingrediente nobre. Seus parentes mais robustos — xerez, vinho do Porto, madeira — não tiveram a mesma sorte. Ficaram esquecidos no fundo do armário, abertos há meses só para o risoto ou o brinde de fim de ano, quando um século atrás eram tão comuns num bar quanto o próprio gin. Vale entender por que essas garrafas mereciam voltar ao balcão.

O que "fortificado" significa

Vinho fortificado é vinho ao qual se adiciona um destilado de uva (aguardente vínica) durante ou depois da fermentação. Quando entra no meio da fermentação, o álcool mata as levedadas antes que elas consumam todo o açúcar da uva — o resultado é um vinho mais doce e mais forte ao mesmo tempo. Quando entra depois da fermentação já completa, o vinho segue seco, só ganha grau alcoólico e maior capacidade de envelhecer. É por isso que a família cobre um espectro tão largo: de secos quase salgados a doces como calda, todos entre 15% e 22% de teor alcoólico — mais forte que qualquer vinho de mesa, mais suave que qualquer destilado puro.

Essa fortificação tem uma vantagem prática enorme para o bar caseiro: a garrafa aberta dura muito mais do que um vinho comum na geladeira, às vezes semanas em vez de dias — a mesma lógica que já vale para o vermute, só que aqui a durabilidade varia mais por estilo, como se vê abaixo.

Xerez: do seco ao doce numa escala só

Fileiras de barris de xerez empilhados num sistema solera em Jerez, Espanha
Foto: Falkue · CC BY-SA 3.0 · Wikimedia Commons

O xerez (sherry, em inglês) nasce em Jerez, na Espanha, e sua identidade vem do modo de envelhecer, não da uva. Fino e manzanilla envelhecem sob uma camada de levedura chamada flor, que protege o vinho do oxigênio e resulta num estilo pálido, seco, quase salino — servido gelado, como um branco. Quando essa camada se rompe ou nunca se forma por completo, o vinho oxida e vira amontillado (âmbar, com notas de nozes) ou oloroso (mais escuro, encorpado, ainda seco a despeito da cor). No extremo doce fica o pedro ximénez, feito de uva passificada ao sol, escuro como melaço. Para coquetel, os estilos secos — fino, amontillado, oloroso — são os que entram na coqueteleira; o doce fica para depois do jantar, puro.

Vinho do Porto: o coquetel que o Brasil já bebe sem saber

Poucas casas brasileiras não têm uma garrafa de Porto na estante, geralmente reservada para a ceia de Natal. O que menos gente sabe é que dá para usá-la o ano inteiro. O ruby é jovem e frutado, o tawny envelhece em madeira e ganha notas de caramelo e nozes, e existe até um Porto branco, menos comum, que em Portugal se bebe simplesmente com tônica e gelo — o "Porto tónico" que substitui o gin tônica no calor do verão europeu. Qualquer um dos três entra em coquetel; o tawny, por já vir oxidado, também é o que aguenta mais tempo de garrafa aberta.

Madeira: o fortificado que melhora com a viagem

O madeira nasce na ilha portuguesa do mesmo nome e tem a história mais estranha da família: durante séculos, os barris viajavam de porão de navio para as colônias, atravessando o calor dos trópicos — e o vinho voltava mais gostoso do que tinha ido, porque o calor e a oxidação prolongada, que arruinariam qualquer outro vinho, aceleravam o mesmo processo que hoje se reproduz de propósito em estufas ou sótãos aquecidos (a técnica chamada canteiro). Conta a tradição que foi com madeira que se brindou à independência americana em 1776. É o fortificado mais durável de todos depois de aberto — praticamente indestrutível — mas também o mais raro nas cartas de coquetel; funciona bem como substituto do xerez oloroso em qualquer receita, com um toque extra de caramelo queimado.

No copo: os clássicos

Adonis Cocktail. O parente esquecido do Manhattan: xerez seco no lugar do whisky, vermute doce e uma gota de bitter de laranja, mexidos com gelo e servidos numa taça de coquetel. Mais leve, mais floral, e prova de que dois vinhos fortificados — xerez e vermute — se equilibram tão bem quanto destilado e vermute.

Sherry Flip. A técnica do flip — ovo inteiro batido com o líquido para dar corpo aveludado — descrita no guia de técnicas básicas, aplicada ao xerez com creme de leite e açúcar, finalizado com noz-moscada ralada. Fica entre o coquetel e o sobremesa.

Port Wine Cocktail. A simplicidade máxima: vinho do Porto e um fio de brandy, mexidos com gelo. Prova que o Porto sozinho já é coquetel, sem precisar de mais nada.

Porto Flip. A versão do flip que troca o xerez pelo Porto e o creme pela gema de ovo — mais denso, mais doce, sobremesa líquida de taça pequena.

Chicago Fizz. Aqui o Porto sai do papel de protagonista e entra como parceiro do rum: os dois batidos com limão, açúcar e clara de ovo, completados com água com gás. Mostra que vinho fortificado também funciona dividindo os holofotes com um destilado.

Qual garrafa comprar

Prefira garrafas de 500 ml a 750 ml e trate como vinho branco depois de aberta: geladeira sempre, e um prazo que varia por estilo. Um fino ou manzanilla seco dura pouco — cerca de uma semana com boa qualidade — porque foi feito para ser leve e não tem a proteção da oxidação. Um amontillado ou oloroso aguenta várias semanas, já que a oxidação faz parte do processo desde o início. O tawny e o madeira são os mais tolerantes de todos. Para começar, uma garrafa de xerez seco (fino ou amontillado) e um tawny já abrem o Adonis, o Sherry Flip, o Port Wine Cocktail e o Chicago Fizz — quatro perfis diferentes de uma família que só ficou esquecida por falta de apresentação.