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Café no copo: espresso martini, irish coffee e o encontro de dois vícios

Por Douglas Taylor·
Café no copo: espresso martini, irish coffee e o encontro de dois vícios

Dick Bradsell, bartender londrino, contava que a criação mais famosa da sua carreira nasceu de um pedido impossível nos anos 1980: uma cliente queria algo que a acordasse e derrubasse ao mesmo tempo. A resposta — vodka, espresso recém-tirado e licor de café, batidos até espumar — atravessou décadas e voltou à moda com força nos últimos anos. Para o Brasil, maior produtor de café do mundo, o gênero é quase uma obrigação de casa: poucos países têm matéria-prima melhor para esses drinks na própria cozinha.

Espresso martini: a espuma é o drink

A receita que funciona:

  • 50 ml de vodka
  • 30 ml de espresso fresco (tirado na hora, ainda quente)
  • 20 ml de licor de café
  • 5 ml de xarope simples (opcional — prove o espresso antes)

Bata tudo com bastante gelo, com vigor e por mais tempo que o habitual — 15 segundos cheios —, e coe duplo para a taça gelada. A espuma cor de avelã que cobre o drink não vem de clara nem de mágica: vem da crema do espresso, as proteínas e óleos do café emulsionados pelo shake. Por isso a regra inegociável é café tirado na hora; espresso de uma hora atrás perdeu a crema e rende um drink careca. Três grãos de café por cima fecham a apresentação clássica.

Sem máquina de espresso, há um plano B honesto: café coado num filtro com dose dupla de pó — concentrado, encorpado — esfriado rapidamente. A espuma sai mais tímida, o sabor se mantém. Cafeteiras italianas (moka) ficam no meio do caminho e funcionam bem.

Um aviso de relógio, não de receita: o drink carrega uma dose real de cafeína. É coquetel de início de noite — servido às 23h, ele cumpre exatamente a metade "acordar" do pedido original.

Irish coffee: o quente que virou ritual

A história mais aceita o coloca no aeroporto de Foynes, na Irlanda dos anos 1940, onde o chef Joe Sheridan teria reforçado o café de passageiros congelados de um voo transatlântico com uísque irlandês — e respondido, à pergunta se aquilo era café brasileiro, que era café irlandês. O irish coffee é dos raros clássicos quentes, e o ritual importa tanto quanto a receita:

  1. Aqueça o copo (de vidro, com alça ou parede grossa) com água quente; descarte.
  2. 45 ml de uísque irlandês, 2 colheres de chá de açúcar mascavo, 120 ml de café coado quente e forte. Mexa até dissolver.
  3. Por cima, creme de leite fresco levemente batido — ponto de fita, não chantilly firme — vertido sobre as costas de uma colher para flutuar.

A regra de ouro: não mexa depois do creme. O drink se bebe através da camada gelada de creme, quente por baixo e frio nos lábios — esse contraste é o irish coffee. Misturar tudo produz um café com creme que qualquer padaria faz.

Os russos de sobremesa

O par de Kahlúa fecha o repertório. O black russian — vodka e licor de café no copo baixo com gelo — é o esqueleto; o white russian adiciona creme de leite flutuado e ganhou vida eterna como assinatura do protagonista de O Grande Lebowski. Nenhum dos dois leva café fresco: o licor faz o papel sozinho, e é exatamente por isso que funcionam como drinks de sobremesa — doces, fáceis, sem cafeína em dose de espresso.

O licor de café importa menos do que parece

Dos quatro drinks, três levam licor de café — e a boa notícia é que essa é a parte flexível da fórmula. O licor entra como adoçante aromatizado, não como fonte principal do sabor de café: essa função é do espresso (no martini) ou do próprio coado (no irish). Rótulos importados e nacionais cumprem o papel; a diferença real está na doçura, que varia bastante de marca para marca. Por isso o xarope do espresso martini é opcional: com um licor mais doce, ele sai da receita; com um mais seco, entra. Prove o conjunto antes de servir — num drink com tantas camadas de amargo e doce, o gole de verificação vale dobrado.

A regra que atravessa todos

O café é ingrediente perecível como o limão: oxida, perde aroma, azeda. Espresso na hora, coado forte ainda quente, grão de torra média moído no dia — cada drink desta página melhora na exata medida da qualidade do café que entra nele. Para o país que cultiva o melhor grão do planeta, tratar o café do drink com o mesmo critério do café da xícara não é exigência: é coerência. As técnicas de shake que fazem a espuma acontecer estão no guia de técnicas básicas.